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Quantos kVA seu rack precisa no colocation

Como calcular quantos kVA o seu rack precisa no colocation: fator de potência, folga do disjuntor e redundância A+B, com a conta feita passo a passo.

Saiph TI #Colocation#Datacenter#Infraestrutura

Toda cotação de colocation trava na mesma pergunta: quantos kVA o seu rack precisa? A resposta que a maioria dos times de TI dá sai de uma planilha com a etiqueta de cada fonte somada, e é exatamente aí que a conta chega errada. Erra para mais na maior parte das vezes, erra para menos nas piores.

Errar para mais custa dinheiro parado: você reserva capacidade de UPS, gerador, climatização e circuito que nunca vai usar, e paga por ela todos os meses. Errar para menos custa disponibilidade: o disjuntor abre no dia em que o rack finalmente ficou cheio, quase sempre fora do horário comercial. Este artigo mostra a conta certa, com as três correções que quase ninguém aplica (etiqueta, fator de potência e folga) e um exemplo numérico fechado do começo ao fim.

kVA e kW não são a mesma coisa

Antes da conta, a distinção que resolve metade dos erros:

  • kW é potência ativa, a parte da energia que vira trabalho (processamento, disco girando, ventilador soprando). É o que aparece no consumo, em kWh.
  • kVA é potência aparente, o total que a instalação precisa suportar em corrente, incluindo a parcela reativa que não vira trabalho mas ocupa o cabo, o disjuntor e o UPS do mesmo jeito.

A relação entre os dois é o fator de potência (FP): kVA = kW / FP. Quando o FP é 1, os dois números coincidem. Na vida real, nunca são exatamente iguais.

O datacenter fala em kVA porque é assim que se dimensiona infraestrutura elétrica. A nossa facility de Belo Horizonte, por exemplo, é descrita em kVA na ficha técnica: geradores a diesel redundantes de 330 kVA, expansíveis a 700 kVA, e subestação própria de 13,8 kV. Gerador, UPS e transformador têm limite de corrente, não de trabalho útil, e por isso são vendidos em potência aparente.

Duas fórmulas fecham a tradução para o mundo do rack, ambas do white paper 3 da Schneider Electric sobre cálculo de requisitos de energia:

  • Monofásico: Amperes = VA / Volts
  • Trifásico: Amperes = VA / (Volts x 1,73)

Erro 1: somar a etiqueta das fontes

A etiqueta (o nameplate) não é o consumo do equipamento. É o pior caso, exigido pelos laboratórios de certificação, e fica bem acima do que a máquina puxa em operação normal. O mesmo white paper da Schneider é direto: a etiqueta da maioria dos dispositivos de TI excede a carga real em pelo menos 33%, e a recomendação prática é multiplicar o total em VA por 0,67 para estimar a potência de fato consumida.

Há um segundo erro embutido no primeiro, e ele é mais caro: contar as duas fontes redundantes como se fossem duas cargas. Um servidor com duas fontes de 750 W não consome 1.500 W. As duas entregam, juntas, no máximo os 750 W que o servidor pede, dividindo a carga em torno de 50% para cada uma quando ambas estão ativas, como explica este material da TechTarget sobre fontes duplas. Redundância é seguro, não capacidade adicional.

Somando etiqueta de fonte dupla, um rack modesto “vira” 11 kVA na planilha. É esse número inflado que costuma chegar na cotação.

Erro 2: assumir fator de potência 1

O segundo ajuste é o FP, e ele tem uma armadilha pouco conhecida: o fator de potência piora quando a fonte trabalha com pouca carga.

O selo 80 PLUS exige eficiência de 80% ou mais nos pontos de 10%, 20%, 50% e 100% de carga, com fator de potência real de 0,9 ou superior. Já a especificação ENERGY STAR para servidores, versão 4.0 detalha o comportamento por faixa. Na Tabela 2 do documento, uma fonte AC-DC de saída única precisa entregar:

Carga da fonteFator de potência mínimo
20%0,80
50%0,95
100%0,95

Traduzindo para a conta do rack: 3,8 kW reais com FP 0,95 pedem 4,0 kVA. Os mesmos 3,8 kW com FP 0,80, situação de um rack com fontes muito folgadas, pedem 4,75 kVA. É quase 20% de diferença sem nenhuma mudança de hardware, só pelo ponto de operação.

A conclusão prática é contraintuitiva: superdimensionar a fonte piora o dimensionamento elétrico, porque empurra o equipamento para a faixa em que o fator de potência é pior.

Erro 3: esquecer a folga do disjuntor e o lado B

Carga de TI é carga contínua: corrente que se mantém por três horas ou mais. Para esse regime, o código elétrico americano (NEC, artigo 210.20(A)) manda dimensionar o circuito para 125% da carga contínua, o que na prática significa usar no máximo 80% do valor nominal do disjuntor. O white paper da Schneider aplica o mesmo fator de 125% no dimensionamento do serviço elétrico do datacenter. A lógica é térmica, não burocrática: o dispositivo de proteção aquece com corrente constante e é ensaiado para operar continuamente em 80% da própria nominal.

O que isso quer dizer no contrato: um circuito de 32 A em 220 V tem 7,0 kVA nominais, mas 5,6 kVA utilizáveis. Um de 25 A tem 5,5 kVA nominais e 4,4 kVA utilizáveis. Se você contratou olhando o número nominal, contratou menos do que pensa.

O segundo componente da folga é a redundância A+B, os dois circuitos independentes que alimentam o rack. Aqui a regra é ainda mais restritiva, porque cada lado precisa aguentar o rack inteiro sozinho quando o outro cair. O material da TechTarget é explícito: com PDUs em par, o correto é não passar de 40% do valor nominal de cada uma, justamente para que a remanescente absorva 100% da carga e ainda respeite o limite de 80%. Quem carrega os dois lados a 50% acha que tem redundância, e descobre que não tem no instante da falha, quando o disjuntor do lado sobrevivente abre.

Vale separar dois conceitos que costumam se confundir: A+B é redundância elétrica dentro do mesmo site. Ela não substitui a redundância geográfica entre datacenters diferentes, que protege contra a perda do site inteiro. São camadas distintas e independentes.

A conta, passo a passo

Um rack de exemplo, típico de operação mid-market. Repare que a coluna de etiqueta considera uma fonte por equipamento, não o par redundante:

EquipamentoQtd.Etiqueta (1 fonte)Subtotal
Servidor 1U (2 fontes redundantes)6750 VA4.500 VA
Storage 2U (2 fontes redundantes)1800 VA800 VA
Switch 1U2150 VA300 VA
Firewall 1U1100 VA100 VA
Total de etiqueta5.700 VA

As etiquetas acima estão em VA, como vêm na plaqueta de entrada da fonte. Se a sua traz só os watts de saída, converta antes de somar: VA de entrada = W de saída / (eficiência x fator de potência). Uma fonte com 1.000 W de saída nominal, 90% de eficiência e FP 0,95, puxa cerca de 1.170 VA na entrada. Misturar as duas unidades na mesma coluna é o mesmo erro de assumir fator de potência 1.

A partir daí:

  1. Corrija a etiqueta. 5.700 VA x 0,67 = 3.819 W, ou cerca de 3,8 kW de carga real estimada.
  2. Converta com o fator de potência. 3,8 kW dividido por 0,95 = 4,0 kVA.
  3. Some o crescimento previsto. Dois servidores a mais em doze meses somam cerca de 1,0 kW real, levando o rack a 4,8 kW, ou 5,1 kVA.
  4. Aplique a folga de 80%. 5,1 kVA dividido por 0,8 = 6,4 kVA de circuito, que em 220 V monofásico equivale a 29 A. O circuito adequado é o de 32 A.
  5. Desdobre em A+B. Dois circuitos de 32 A, cada um capaz de assumir o rack inteiro. Em operação normal, cada lado carrega cerca de 11,6 A, ou 36% da nominal, dentro da regra dos 40%.

Compare com as duas contas erradas que aparecem na prática. Somando as fontes redundantes, o mesmo rack “pediria” 11 kVA, quase três vezes o necessário, com todo o excedente pago como capacidade reservada e nunca usada. No outro extremo, contratar 3,8 kVA porque “é o que ele consome” deixa o rack sem nenhuma folga de crescimento, sem margem de disjuntor e sem redundância real.

Um detalhe que vale mais que qualquer planilha: se o equipamento já está rodando, meça em vez de estimar. Uma PDU medida ou um alicate amperímetro no circuito atual dão o consumo real em minutos, e é esse número, não a etiqueta, que deve entrar no passo 2. O mesmo princípio de monitoramento contínuo que evita downtime serve para dimensionar energia com dado, não com estimativa.

Quantos kVA cabem em um rack

Existe um teto físico, e ele quase nunca é o espaço. Segundo o levantamento anual do Uptime Institute de 2025, a densidade média mundial subiu de 6,8 kW para 7,5 kW por rack, com adoção crescente da faixa de 10 kW a 30 kW e poucas instalações passando de 30 kW.

Faça a conta inversa: um rack de 42U completamente ocupado por servidores 1U de 400 W passaria de 16 kW, mais que o dobro da média mundial. Praticamente nenhum data hall entrega isso em um rack isolado sem confinamento de corredor e refrigeração dedicada, porque cada kW entregue vira calor que precisa sair de lá.

A consequência prática, para quem está planejando: distribuir a carga em mais racks parcialmente ocupados costuma ser mais barato e mais seguro do que concentrar tudo em um rack denso. É o mesmo raciocínio que orienta provedores que montam presença em datacenter neutro, onde a expansão é por posição de rack e não por metro quadrado.

Por que o datacenter cobra capacidade, e não só consumo

O kVA contratado não é uma estimativa de consumo. É capacidade reservada no seu nome: uma fatia do UPS, do gerador, da climatização e do circuito que fica alocada quer você use, quer não. É por isso que superdimensionar não é conservadorismo inofensivo.

Os números por trás dessa reserva explicam a lógica. O mesmo white paper da Schneider aponta que um UPS real opera em torno de 88% de eficiência, que a recarga de bateria depois de um evento pode chegar a 20% da carga nominal do equipamento, e que a refrigeração consome de cerca de 70% (sistemas a água gelada) a praticamente 100% (expansão direta) da carga de pico suportada. Somando tudo, a média mundial de PUE segue pouco acima de 1,5, praticamente parada há seis anos, segundo o Uptime Institute.

Ou seja: cada 1 kW dentro do seu rack mobiliza cerca de 1,5 kW na instalação. Essa é a diferença entre um datacenter e uma sala de servidores adaptada, e é a razão pela qual a conta de energia da sala interna sempre parece barata até alguém somar climatização, nobreak e gerador, tema que detalhamos no artigo sobre quando o colocation vale a pena.

O que levar para a cotação

Um pedido de proposta bem instruído economiza duas ou três rodadas de conversa. Leve:

  1. Inventário do rack, com modelo, quantidade e etiqueta de cada equipamento (uma fonte por equipamento, não o par).
  2. Medição real do consumo atual, se o ambiente já roda, em vez da soma de etiquetas.
  3. Horizonte de crescimento de 12 a 24 meses, com o que já está contratado ou orçado.
  4. Se precisa de A+B, e quais equipamentos são de fato dual-corded.
  5. Tensão e tipo de circuito (220 V monofásico ou trifásico) e o padrão de tomadas do seu hardware (C13, C19).
  6. Densidade máxima desejada por rack, para o projeto de climatização acompanhar.
  7. Se precisa de medição individualizada por tomada ou por circuito, para rateio interno.

Na Saiph TI, o colocation vai de 1U a rack completo, em facility de telecom padrão Tier III em Belo Horizonte, com energia redundante, climatização de precisão, remote hands 24x7 e SLA de 99,9% em contrato. Quem prefere não fazer esse dimensionamento (nem comprar o hardware) tem o caminho do servidor dedicado, em que a energia deixa de ser um item do seu contrato e passa a ser problema nosso.

Perguntas frequentes

kVA e kW são a mesma coisa?

Não. kW é a potência que vira trabalho e kVA é a potência aparente que a instalação precisa suportar. A conversão é kVA = kW / fator de potência. Em equipamento de TI moderno o fator de potência fica perto de 0,95 em carga alta, mas cai bastante em carga baixa, e é aí que a conta engana.

Como converter amperes em kVA no rack?

Em 220 V monofásico, kVA = (Amperes x 220) / 1000. Em trifásico, multiplique também por 1,73. Um circuito de 32 A em 220 V monofásico tem 7,0 kVA nominais, dos quais cerca de 5,6 kVA são utilizáveis pela regra dos 80% para carga contínua.

Posso contratar exatamente o que o meu rack consome hoje?

Não é recomendável. Falta a folga de 80% do disjuntor, o crescimento previsto e, se houver redundância A+B, a margem para um lado assumir a carga inteira. Contratar o consumo exato de hoje significa operar sem nenhuma reserva de segurança.

Se o meu servidor já tem fonte redundante, preciso mesmo de A+B?

A fonte redundante protege contra falha da fonte. Se as duas estiverem no mesmo circuito, uma falha de disjuntor, de PDU ou de barramento derruba o servidor do mesmo jeito. O A+B existe para cobrir esse caminho, e só funciona se cada lado tiver capacidade para o rack inteiro.

Quantos kVA cabem em um rack de 42U?

O limite prático é térmico, não de espaço. A média mundial está em 7,5 kW por rack e a faixa de 10 kW a 30 kW é a que mais cresce, mas alta densidade exige projeto de refrigeração compatível. Encher um rack de servidores 1U sem checar a densidade suportada é o caminho mais rápido para o superaquecimento.


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